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Opinião

A frustração é o melhor que podia acontecer ao rugby português

Artigo escrito por: Joel Monteiro

A frustração é um excelente motivador para a mudança.

Sem a frustração de Ferruccio Lamborghini com a embraiagem e a transmissão do seu Ferrari (e a recusa de Enzo Ferrari em fazer qualquer coisa relativamente a esse assunto), nunca teria nascido a Lamborghini. E a Netflix? Nascida da frustração de ter que pagar multas por atrasos na devolução de filmes no clube de vídeo (lembram-se deles?).

Acho que no rugby português também estamos a começar a ver a frustração a transformar-se em acção.

O primeiro passo aconteceu a 1 de abril deste ano, quando 8 clubes de Lisboa, a competir na Divisão de Honra – Top 12, anunciaram a fundação da Associação Super XV-Rugby Portugal, sendo um dos seus objetivos “Criar e organizar novas competições, nomeadamente o torneio Super XV – TOP 8, envolvendo as equipas de topo do rugby nacional”, leia-se: os clubes fundadores.

O anúncio apanhou toda a gente de surpresa e o resto do país reagiu como quem não foi convidado para uma festa à qual vai todos os anos. Não tardou a surgir paralelos entre o que tinha acontecido e o maior dos fantasmas do rugby: frustrados com a política amadora da Rugby Union, 22 clubes da mesma zona geográfica decidiram criar a sua própria competição profissional, a Rugby League, para travar a fuga de atletas para o recentemente profissionalizado futebol. Soa familiar, certo?

Tal como a separação entre Union e League foi a pior coisa que alguma vez aconteceu ao rugby, um cisma no rugby nacional seria uma catástrofe para a modalidade em Portugal e acabaria por, inevitavelmente, colocar 2 rugbys a desenvolver-se em paralelo no país, mesmo que o torneio “Super XV – Top 8” que está nos planos se realizasse em paralelo com o campeonato. O presidente da Federação, Carlos Amado da Silva, aplaudiu a decisão (em boa parte por retirar à FPR a responsabilidade de organizar e financiar mais uma competição), mas exigiu (e bem) que esta associação não fosse fechada aos clubes fundadores.

Embora discorde da forma, concordo com a substância e, mais importante, compreendo perfeitamente por que o fizeram.

Tal como o Rugby League, não tenho quaisquer dúvidas de que a criação da Associação Super XV-Rugby Portugal surja a partir de um sentimento de frustração, neste caso uma frustração que todos partilhamos por não vermos materializadas as enormes expectativas que criamos após o Mundial de 2023: mais público, mais atletas, mais patrocinadores, maior exposição do nosso rugby. 2 anos e meio depois, e apesar do sucesso desportivo dos Lobos no último REC, tal ainda não aconteceu. E isso é frustrante.

Falando pessoalmente, ser fã dos Lobos é muito isto: uma grande vitória internacional não é apenas uma demonstração de superioridade desportiva, mas o reacender da esperança de que, desta vez, aquela vitória importante naquele torneio mediático é que vai ser o catalisador para que tudo mude. Infelizmente, as mudanças não estão a surgir ao ritmo ou da forma que gostaríamos, daí a criação da Associação Super XV-Rugby Portugal e este meu artigo.

De frustração a acção

Os mais recentes mundiais masculinos e femininos bateram novos recordes de audiência e de bilheteira; a URC, o PREM e o Top 14 têm cada vez mais espectadores e a seleção francesa de rugby já cola mais olhos aos ecrãs que a de futebol. O que raio andamos a fazer de errado em Portugal para não acompanharmos esta tendência? Muita coisa, na minha opinião.

Decidi dar o meu contributo porque partilho da mesma frustração de não ver o rugby português no lugar que merece. Trabalho em estratégia de marketing e de produto há mais de 15 anos, sigo uma quantidade muito pouco saudável de ligas profissionais de vários desportos e não tenho quaisquer dúvidas de que o rugby tem a base necessária para se tornar o desporto nº 2 em Portugal se der os passos corretos. E não sou o único a acreditar nisso: além da Associação Super XV-Rugby Portugal, também o Iberian Rugby Championship pretende criar novas competições, e o que têm escrito o nosso centurião Vasco Uva n’A Bola, o Mike Dias, da Portugal World Legends, no LinkedIn ou o cronista Henrique Raposo, no Expresso, mostra que existe muita gente a identificar a mesma oportunidade de desenvolvimento que eu e com vontade de fazer alguma coisa.

Credito: Luis Cabelo

Este desassossego nas competições internas vai ter certamente efeitos nas seleções nacionais. Nos campeonatos europeus de sub-18, A própria Federação Portuguesa de Rugby também mostra ambição ao identificar os Pilares Estratégicos no Plano Estratégico 2025/2028, mas aponta vários problemas estruturais: “Persistem carências de infraestruturas adequadas, desigualdades territoriais no acesso à prática desportiva e a necessidade urgente de formar e reter mais árbitros, treinadores e dirigentes qualificados.”

A esta lista, junto o baixo aproveitamento da marca “Os Lobos”, a acessibilidade dos jogos, a qualidade das transmissões, a centralização em Lisboa, a experiência de jogo, o ensino do rugby, o marketing e comunicação, e o ainda baixo número de clubes. É sobre problemas estruturais do rugby português que planeio escrever ao longo das próximas semanas, mas também sobre soluções que, garantidamente, podem fazer o rugby português crescer e alcançar o que todos desejamos: mais atletas, mais adeptos, mais patrocinadores e maior sucesso desportivo.

Credito: Luis Cabelo
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