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Opinião

Esconder os Lobos é esconder o rugby

Artigo escrito por: Joel Monteiro

Cresci numa era em que a televisão em direto era a cola que unia culturalmente a sociedade. Toda a gente assistia aos mesmos programas e, no dia seguinte, discutia-os na escola, em casa ou no trabalho. Era a televisão que nos unia nos momentos de alegria quando ouvíamos a mesma piada do Levanta-te e Ri pela enésima vez numa semana, mas também nos momentos de tristeza, quando cada um contava o que estava a fazer quando viu o trágico acidente do Ayrton Senna. Os canais de cabo chegaram e, de repente, cada um começou a consumir mais do que realmente gostava. Começamos a perder a uniformização, mas foi   com a massificação dos serviços de streaming que a televisão se começou a tornar uma relíquia do passado, consumida apenas pelos mais velhos sem o hábito de assistir apenas ao que quer e quando quer.

A televisão está em declínio e com cada vez menos espectadores. Nos anos 60, nos EUA, um programa com menos de 15M de espectadores era considerado um fracasso e seria prontamente cancelado; hoje em dia, o programa mais visto no país (NCIS) chega a 7M de espectadores e 3M é o que basta para uma série ser renovada.

Mas nem toda a televisão está em declínio e existe um segmento em franco crescimento: as transmissões desportivas em direto. Com mais de 22 biliões de dólares de receitas na última época, a liga de futebol americano (NFL) é, com larga margem, a liga desportiva mais rentável do planeta, apesar de durar umas meras 18 semanas e cada equipa jogar apenas 17 jogos na fase regular. Além de gerar mais de 77 milhões de dólares por jogo, a NFL também domina por completo as audiências nos EUA: 55 dos 100 programas mais vistos do ano foram jogos e magazines da NFL. O resto do top 100 é maioritariamente preenchido com outros eventos desportivos. Em Portugal, o mesmo cenário repete-se, como podemos ver nesta tabela dos 20 programas mais vistos em Portugal em 2025:

Esta lista mostra-nos o óbvio – que o futebol domina as audiências em Portugal – mas também o pouco óbvio: como é que num país onde toda a gente é do Benfica, do Porto e do Sporting, os jogos entre estes clubes não fazem parte dos 20 programas mais vistos? A resposta a esta questão está na segunda coluna da tabela: as pessoas assistem ao que é acessível. Um Moreirense-Benfica de graça tem mais telespectadores que um Sporting-Porto que custa 25,99€/mês em Standard HD e um Gil Vicente-Sporting à borla bate aos pontos um Benfica-Porto que custa 11,49€/mês sem fidelização ou 10,49€/mês com fidelização. Os números da NFL nos EUA são impressionantes, mas o pilar basilar deste sucesso é o mesmo do futebol em Portugal: a esmagadora maioria dos jogos passa em canal aberto. Se passar de borla na TV, a pessoa vê..

E é precisamente por isto que tão poucos assistem a rugby em Portugal.

A prioridade nº 1 da Federação Portuguesa de Rugby

A FPR quer aumentar em 50% o número de praticantes federados até 2030 (ou seja, chegar perto de 12.000 praticantes). Até lá, vamos jogar mais 4 edições do REC, 1 Mundial, 2 Nations Cup e alguns testes internacionais. Se todos estes jogos estiverem atrás de uma mensalidade, posso adiantar que não vamos atingir esses números e acho que estamos todos conscientes disso.

Tal como a geração de 2007 inspirou boa parte da de 2023 a praticar rugby, também a de 2023 teve um impacto gigante no número de miúdos que se inscreveram após o Mundial,  mas tão importante quanto o que aconteceu dentro de campo foi a forma como isso chegou até eles: os jogos passaram na RTP 2. O resultado? O número de praticantes duplicou de um ano para o outro:

Os Lobos são a marca mais subaproveitada do desporto português e os maiores impulsionadores do rugby em Portugal. Qualquer estratégia de crescimento da modalidade tem de ser moldada em torno dos Lobos porque a capacidade de fazer muito com muito pouco é impressionante – e não me refiro apenas ao sucesso desportivo: com apenas 4 jogos dos Lobos em canal aberto em 2023, o número de praticantes cresceu mais de 100%! Mas não foi apenas o número de atletas que cresceu; cresceu também o número de patrocinadores e o valor desses patrocínios. Perante isto, a prioridade número 1 da Federação Portuguesa de Rugby só pode ser garantir o maior número possível de jogos em canal aberto. Os números demonstram que tudo o resto vem por acréscimo.

Quando tentei fundar um clube em Esmoriz, a minha terra natal, pouco depois do mundial de 2007, a Associação de Rugby do Norte disse-me que o grande problema na altura era a falta de treinadores porque as escolas estavam com dificuldades em lidar com tanta procura. O mesmo aconteceu após a nossa prestação no Mundial de 2023, que culminou com uma inspiradora vitória contra as Fiji que muitos miúdos puderam ver na RTP 2 e que os levou a pedir aos pais para praticarem rugby. Isto é especialmente relevante para o norte e o centro do país, onde a exposição dos miúdos ao rugby é muito inferior à de Lisboa e onde os Lobos raramente jogam, apesar dos inúmeros pedidos nas redes sociais (matéria para outro artigo). A ideia de abrir o rugby nos Lobos de Leiria surgiu nessa altura e não tivemos quaisquer dificuldades em atrair atletas para o desporto, apesar dos poucos meios e da falta de tradição na região. Imaginam quantos mais miúdos teríamos inspirado se tivéssemos dado a todos os portugueses a oportunidade de assistir à nossa vitória frente à Geórgia, que nos deu o 1º REC em 22 anos?

Estamos a 1 mês da edição inaugural da Nations Cup e estamos entre os favoritos a vencê-la, o que nos colocaria no caminho para competir com equipas do Tier 1 em 2030. Esta competição preenche todos os critérios para ser classificada de interesse generalizado do público pelo Despacho n.º 13692/2024, de 20 de novembro, mas, até agora, não sabemos onde vamos poder assistir aos jogos. O meu receio é que esta seja mais uma oportunidade desperdiçada de mostrar aos miúdos de Portugal o que é o rugby e que seja apenas acessível a quem estiver disposto a pagar uma mensalidade à Sport TV. Isto não é um ataque à  Sport TV – que até faz uma excelente cobertura de rugby –  mas nem para eles é vantajoso que os jogos dos Lobos estejam fora da televisão pública. Tal como aconteceu com o futebol, os jogos na televisão pública criaram adeptos e a Sport TV deu-lhes conteúdo especializado da modalidade. O mesmo caminho pode ser feito no rugby: os jogos dos Lobos na televisão pública criam o interesse pela modalidade e a Sport TV é a especialista que lhes oferece competições internacionais regulares.

Conclusão

O que vimos com a NFL nos EUA e o futebol em Portugal repete-se por todo o planeta: o desporto em canal aberto domina as transmissões televisivas. No país com o maior número de jogadores de rugby no planeta, o rugby em canal aberto é o rei das audiências, com o França x Escócia nas 6 Nações a superar mesmo a final da Liga dos Campeões entre o Paris Saint-Germain e o Inter de Milão em 2025. Os jogos em canais abertos do XV de França ao longo dos anos tornaram o Torneio das 6 Nações um gigante de audiências e a França a maior potência do rugby no Hemisfério Norte. Sem jogos em canal aberto, o interesse do público, os patrocinadores e o número de praticantes que se tornariam atletas no futuro cairiam a pique e o produto destruir-se-ia. A organização do torneio tem perfeita consciência disso e desdobra-se para que a competição se mantenha acessível ao maior número de pessoas possível. Se a receita para o sucesso é simples, por que é que não a aplicamos cá?

Não faço a mínima ideia de quanto recebe a Federação Portuguesa de Rugby pela transmissão dos jogos dos Lobos em canais premium (as Receitas Próprias no Plano de Atividades 2026 mostram 50.000€ da Rugby TV, mas não sei se corresponde a isso), mas nenhum dinheiro compensa o enorme dano que esta barreira está a causar à modalidade em Portugal. Sem os Lobos em canal aberto, o rugby em Portugal está condenado ao nicho e ao subdesenvolvimento porque vai ser impossível quebrar o ciclo vicioso em que se encontra: sem jogos acessíveis não temos gente suficiente a ver rugby, sem gente suficiente a ver não conseguimos convencer patrocinadores, sem patrocinadores não conseguimos financiar a federação de forma a alcançar resultados desportivos e sem resultados desportivos não conseguimos atrair público e atletas para o rugby.

Na semana passada prometi que não me limitaria a apontar as falhas do rugby em Portugal, mas como este artigo já vai longo, deixo as soluções para a próxima semana. 

Credito: Luis Cabelo
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