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O rugby não cresce às escondidas
Opinião

Artigo escrito por: Joel Monteiro

“Como é que a Espanha se tornou a nação mais entusiasmante do rugby?”, pergunta o Squidge Rugby, o maior canal de análise de rugby do planeta, 1 ano depois da Rugby Pass perguntar “Será Espanha a próxima superpotência do rugby?”. Os nossos maiores rivais são constantemente vistos como o próximo epicentro do grande crescimento do rugby a nível mundial, algo que os mais desatentos podem estranhar. Afinal de contas, ao contrário de Portugal, Espanha nunca venceu um Rugby Europe Championship e o Mundial de 2027 vai ser o primeiro em que participa desde 1999. Apesar disso, nada impede a ambição de organizar o Mundial de Rugby de 2035, uma ideia que até contou com Portugal numa fase embrionária. O foco da federação espanhola tem sido os Sevens, provavelmente porque o estatuto de modalidade olímpica traz apoios financeiros para crescer a modalidade. No entanto, a estratégia aprovada há uns dias para a época 2026/27 mostra que Espanha é uma federação de Tier 2 a comportar-se como uma de Tier 1 e com ambições semelhantes: depois de se qualificarem para o Austrália 2027, querem marcar presença regular nas 6 Nações sub-20 (como já o fazem com os sub-18) e qualificar a seleção feminina para o Mundial de 2029.

Quando comparados com Portugal, os números de Espanha são bem expressivos: o orçamento da federação espanhola é pouco mais do dobro do português (9,5M€ vs 4,2M€), mas o número de atletas federados é mais do que 5 vezes maior (pelo menos 36.000 vs 7.750). A distribuição por género também é notável: com o rugby feminino a ser tratado da mesma forma que o masculino, 20% dos praticantes em Espanha são mulheres – em Portugal, são apenas 8%. Mas o mais impressionante – e o motivo de tanto alarido em torno do rugby espanhol – é o crescimento: há mais de 10 anos que, em média, Espanha atrai mais de 2.000 novos atletas para o rugby. No final de contas, qualquer desporto é um jogo de números: quanto maior for a base de recrutamento, maior é a probabilidade de formar grandes atletas e equipas. Mas, num país obcecado por futebol, como é que a Federação Espanhola consegue captar tantos jogadores?

O poder da visibilidade

Como não tenho parado de insistir desde que comecei a escrever sobre rugby, o segredo por trás do crescimento de qualquer coisa é a visibilidade: nada cresce se ninguém for capaz de ver. Espanha percebeu isso bastante cedo.

Os jogos dos Leones no Rugby Europe Championship (a principal competição do Tier 2 europeu), bem como outros testes internacionais, são todos transmitidos na Teledeporte. Este é o canal desportivo da RTVE, a televisão pública espanhola, equiparável à nossa RTP (com os jogos a ficarem também disponíveis na RTVE Play, o equivalente à RTP Play). Mas a aposta vai além das seleções. Há vários anos que a televisão pública emite jogos dos clubes: o jogo grande da jornada tem lugar cativo na grelha televisiva, enquanto a totalidade do campeonato feminino e da Taça é transmitida na plataforma de streaming.

O sucesso destas transmissões em sinal aberto foi tal que atraiu a atenção da Movistar+. O gigante da TV paga adquiriu os direitos para transmitir o jogo de cartaz dos campeonatos masculino e feminino, os playoffs e as fases finais da Copa del Rey, abrindo assim uma nova fonte de receitas para a federação espanhola.

Quando defendi a necessidade da transmissão de jogos em sinal aberto, várias pessoas apontaram que a RTP cobra valores elevados para produzir eventos desportivos, situação que considero inadmissível. Esta situação foi exposta pelo Daniel Monteiro, Presidente da Confederação Portuguesa do Desporto, no Podcast Despolariza (podem assistir aqui ao excerto), que explicou que, de facto, a RTP cobra valores elevados pela produção, apesar de disponibilizar o sinal. Não faz sentido que uma televisão pública que todos financiamos se comporte desta forma, mas o rugby não pode esperar que a realidade mude. O mesmo aconteceu em Espanha e a federação não teve outra hipótese senão encarar esta situação como um investimento na modalidade e pagar 3.700€ e 4.500€ por cada jogo que passasse na televisão. No caso dos jogos dos Lobos, a produção fica a cargo da Rugby Europe (no caso do Rugby Europe Championship) ou da World Rugby (no caso da Nations Cup e do Mundial), pelo que o sinal seria tudo o que teríamos que exigir da RTP.

Por fim, a Federação Espanhola utiliza o seu canal de YouTube para transmitir os jogos dos Leones na Nations Cup, bem como os das seleções jovens e de diversas competições de clubes. A verdade é que os espanhóis ainda chegaram a apostar na ferugby.tv — uma plataforma fechada, muito semelhante à nossa rugby.tv, sobre a qual escrevi há umas semanas. No entanto, o serviço foi rapidamente abandonado em favor do YouTube: a qualidade era bastante inferior, as audiências caíram a pique e os clubes, revoltados, exigiram a sua suspensão. Esperemos que, um dia, o mesmo aconteça por cá. Como já defendi, a existência da rugby.tv não faz qualquer sentido em 2026, ideia que saiu ainda mais reforçada após as recentes transmissões da Nations Cup. Basta comparar a qualidade de imagem do Tonga x Portugal (na Rugby TV) com a do EUA x Espanha (no YouTube) para perceber o enorme downgrade que sofremos (o relato original do jogo de Portugal teve de ser substituído pela versão em inglês, porque o áudio original era atroz: não se ouvia o som ambiente do estádio nem o árbitro, e o comentador (claramente num local impróprio) fazia pausas intermináveis que deixavam a transmissão num silêncio absoluto).

Um investimento no crescimento

Espanha pode ainda não ter os resultados desportivos em XV, mas estou convencido de que é apenas uma questão de tempo. As bases estão todas lá e, com o crescimento do número de atletas assente numa política de visibilidade da modalidade, é inevitável que acabem por atrair financiamento para construir o profissionalismo necessário para se afirmarem como a equipa número 1 dentro do Tier 2. Espanha decidiu investir na visibilidade e já está a colher os frutos do crescimento.

Em Leiria, debatemos muito sobre o que podemos fazer para atrair mais atletas para o rugby e chegamos sempre à conclusão de que, enquanto os miúdos não forem capazes de assistir a rugby, nunca irão abraçar a modalidade – aqueles que se inscreveram inicialmente fizeram-no porque assistiram na RTP aos feitos dos Lobos no Mundial de 2023. Desde então, por muitas campanhas e convívios que realizemos, nunca temos um crescimento expressivo. Para a maioria dos miúdos e dos pais, o rugby é, pura e simplesmente, invisível.

E nas raras vezes em que já ouviram falar da modalidade, esbarramos de frente num muro quase inultrapassável: o preconceito de que é um desporto demasiado violento.

Os dados demográficos recentemente publicados sobre o rugby português revelam uma realidade desoladora. Apesar dos Lobos continuarem a fazer história, esse sucesso traduziu-se num ganho de apenas 71 atletas face à época passada, o que não dá sequer 6 novos praticantes por mês. Quando vemos alguns dos maiores clubes de Lisboa a perder dezenas de jogadores, os alarmes já deveriam estar a soar há muito tempo.

O contraste com o país vizinho é brutal. Espanha tem 4,6 vezes mais população do que Portugal, mas atrai 30 vezes mais praticantes, somando em média 2.000 novos atletas por ano. E fazem-no sem nunca terem vencido as Fiji ou conquistado o REC. Desportivamente, os nossos resultados podem ser superiores, mas o mediatismo do rugby espanhol na TV e no YouTube prova ser infinitamente mais eficaz na promoção do desporto.

Esta situação é extremamente preocupante e devia obrigar-nos a uma reflexão: será que continuar a insistir na invisibilidade é realmente o que queremos para o futuro do rugby em Portugal?

Primeiros Passos
História do Rugby