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Mais público para o rugby português
Opinião

Artigo escrito por: Joel Monteiro

Depois de falar sobre levar o rugby ao grande público, hoje escrevo sobre o caminho inverso: levar o público ao rugby. Sem jogos na TV ou no YouTube, vai ser impossível criar um interesse na modalidade, atrair patrocinadores e formar novos atletas, mas a realização de eventos pode trabalhar algumas destas fragilidades. Sim, não passam de um paliativo face aos obstáculos à acessibilidade que mencionei, mas geram curiosidade e colocam Portugal numa corrida que está a perder face a outras nações do Tier 2 europeu.

Há anos que a Geórgia percebeu que mérito desportivo não basta para ser levada a sério pelo Tier 1 e começou a vender-se como destino turístico para amantes de rugby. Passam anúncios ao país na Champions Cup e, por estes dias, acolhem o Junior World Championship. No entanto, é Espanha quem mais se tem imposto fora de campo. Na preparação de uma candidatura à organização do Mundial de 2035, a Federação Espanhola tem feito um esforço notável na realização de eventos internacionais, com destaque para 2 grandes finais do Rugby Europe Championship e o Valladolid SVNS, para o qual vendeu mais de 30.000 bilhetes. O impacto destes eventos faz-se sentir em duas dimensões. A nível global, colocam o país na rota dos grandes palcos desportivos. A nível local, funcionam como uma das melhores introduções possíveis à modalidade.

Quais os eventos que temos por cá?

Com uma atmosfera festiva que se prolonga durante grande parte do dia, os eventos de rugby são uma experiência atrativa e um bom programa familiar. Em Portugal, este espírito está presente no Algarve 7s (que entretanto cresceu para englobar várias modalidades), mas o maior evento no nosso calendário é mesmo o Rugby Youth Fest, realizado anualmente e que traz a Portugal milhares de jovens de todo o mundo, mas cujo target são escolas de rugby.

Não considerando os jogos oficiais, o único evento realmente direcionado para o grande público que vai além do rugby praticado em campo é a Portugal World Legends. Descobri por mero acaso (num post no Instagram) e fiquei surpreendido como um evento com tantos nomes conhecidos do nosso rugby me passou ao lado. Contactei o Mike Dias, ex-internacional por Portugal, que encabeça o projeto, para saber mais e perceber por que não estava no meu radar.

Criada em 2016 por Tim Vieira, a Portugal World Legends tem por objetivo ajudar o rugby português a crescer. A ideia inicial era formar uma equipa de veteranos conhecidos para jogar contra um XV de lendas sul-africanas, e aproveitar para inspirar a próxima geração de jogadores e aumentar a visibilidade do rugby português. A ideia foi tão bem-sucedida que o projecto não se ficou por ali e, ao longo dos anos, já trouxe a Portugal jogadores de Inglaterra, Gales, Escócia, Irlanda, França, Itália, Nova Zelândia, África do Sul ou das ilhas Fiji, que experienciam a nossa hospitalidade e regressam aos seus países como embaixadores do rugby português.

O público vai aos eventos da Portugal World Legends atraído pela possibilidade de rever jogadores icónicos e estrelas internacionais, mas o projeto não se fica pela mera exibição nostálgica. Além dos jogos, a Portugal World Legends dá aos antigos jogadores uma plataforma após terminarem as suas carreiras e, através de networking empresarial, iniciativas de caridade e ligações internacionais, ajuda-os a contribuir para o desporto enquanto abre portas a oportunidades profissionais e comerciais. É um modelo de negócio comum em França (e até nos 3 grandes do futebol nacional), porque facilita a atração de novos patrocinadores, embora a Portugal World Legends o utilize para fins solidários.

Apesar de ser uma iniciativa capaz de levar gente ao estádio e criar pontes intergeracionais, o projeto tem as suas limitações, nomeadamente por se realizar apenas esporadicamente (os veteranos precisam de tirar tempo das suas carreiras e vida familiar para jogarem) e de ter uma divulgação muito limitada, uma vez que, ao contrário de projectos semelhantes no futebol, a Portugal World Legends não conta com o apoio da Federação Portuguesa de Rugby. Este é, de resto, um dos aspectos que o Mike Dias mais sublinhou como frustrante para o projecto, uma vez que o apoio que pretendem não acarreta custos para a federação.

Nas suas palavras, “O projeto não solicita financiamento significativo, apenas colaboração e apoio. Iniciativas como o Portugal World Legends devem ser encaradas como um trunfo que complementa os objetivos da Federação, ajudando a aumentar a participação, a atrair patrocinadores, a fortalecer as relações internacionais e a elevar o perfil do rugby português. Existe uma vontade genuína de todos os intervenientes em trabalhar em conjunto com a Federação Portuguesa de Rugby. O objetivo comum é simples: ajudar o rugby português a continuar a crescer, tanto a nível nacional como internacional. Com mais colaboração, o impacto poderá ser significativamente maior do que qualquer uma das organizações conseguiria alcançar sozinha.”

Em Portugal, os maiores eventos de rugby nascem da iniciativa privada. Isto denota um claro afastamento da Federação, possivelmente devido à falta de recursos humanos e financeiros para garantir a qualidade exigida. Contudo, acredito ser possível reverter esta tendência, seja assumindo a gestão direta de eventos de menor dimensão, seja delegando essa tarefa a privados, mantendo uma parceria estreita e colaborativa.

Começar pequeno e crescer a partir daí

“Start Small, Grow Big” era o lema da equipa de Data & Analytics da DevScope, onde trabalhei alguns anos. Na prática, traduzia-se na identificação do potencial dos dados gerados por uma empresa, na criação de um projeto-piloto para explorar uma parte desse potencial e, por fim, no crescimento do projeto a partir dos resultados deste piloto.

Acredito que no rugby português já temos o potencial identificado e que está na hora de começarmos projetos-piloto. Deixo aqui 3 sugestões, tanto a nível de clubes como de seleções, que não exigem um grande investimento e acarretam um risco muito baixo. Um dos eventos mais simples e que mais buzz geraria seria a realização da grande final do próximo Rugby Europe Championship. Temos a narrativa perfeita para capitalizar o momento: Portugal quer fazer História em casa e conquistar o 2º REC consecutivo.

Espanha organizou as grandes finais de 2023 e 2026 em estádios com capacidade para cerca de 15.000 pessoas, o que estaria perfeitamente ao nosso alcance. Com uma narrativa assente no momento histórico, boa publicidade institucional e o jogo em canal aberto, uma final em casa seria incrível para a visibilidade da modalidade e levaria um número considerável de adeptos ao estádio para puxar pelos Lobos na sua última final antes do Mundial. Além disso, temos o potencial de bilheteira e a atividade económica se transformarmos a grande final num evento (também se jogam o 3.º e o 4.º lugares e pode haver outras atividades ao longo do dia). Existe sempre o risco dos Lobos não se apurarem para a final, como aconteceu este ano aos Leones, mas a possibilidade de levantar um troféu em casa é um excelente motivador e mais uma peça de storytelling que a comunicação do evento pode aproveitar. Se o anfitrião da grande final do REC 2027 ainda não estiver definido, é uma oportunidade que não devemos deixar fugir.

No que toca a clubes, uma ideia relativamente simples é a avançada pelo Vasco Sousa Uva há uns meses n’A Bola: uma competição entre os 3 primeiros classificados de Portugal e Espanha, com cada jogo realizado em regime de evento de forma a potenciar a atração de público, patrocinadores e media. Não sei se o que o Vasco tinha em mente seria exatamente isto, mas acho que, concluídos os campeonatos nacionais, os 3 primeiros classificados de Portugal e de Espanha poderiam disputar um playoff à imagem do Top 14 francês: os primeiros classificados de cada país apuraram-se diretamente para as meias-finais e as restantes vagas seriam decididas através de eliminatórias cruzadas, com o 2º classificado português a defrontar o 3º espanhol, enquanto o 2º espanhol mediria forças com o 3º luso. No máximo, seriam mais 1 a 3 jogos que as equipas apuradas teriam de adicionar ao seu calendário, criando uma boa mostra para a modalidade sem interferir em demasia nos calendários das seleções. No fundo, estaríamos a expandir o formato da Taça Ibérica de Rugby. Acho que o potencial comercial e competitivo de uma liga ibérica profissional seria inigualável, pelo que esta ideia agrada-me imenso e seria um bom teste para aferir essa viabilidade.

Por fim, deixo mais uma ideia que pega naquele que considero o potencial menos explorado no rugby português: a rivalidade com a seleção espanhola. Desde 1935, Lobos e Leones enfrentam-se esporadicamente, mas sinto que esta narrativa tem o potencial para ser elevada e vendida como uma das grandes rivalidades do rugby. A minha ideia seria realizar a cada 2 anos uma série de testes à melhor de 3 para premiar um campeão ibérico de seleções, com a organização intercalada entre Portugal e Espanha. Os duelos contra Espanha são os que atraem mais público, rivalizando mesmo com assistências da Primeira Liga de futebol (excluindo os 3 grandes). Esta série representaria não só uma fonte de receita de bilheteira para ambas as federações, como também um produto com forte apelo histórico, ideal para vender a patrocinadores e televisões. Por fim, oferecem o pretexto perfeito para descentralizar a modalidade, levando os jogos a todo o país. Exigiria bastante coordenação entre federações e clubes, além de alguma ginástica nos calendários (seria em anos sem Nations Cup), mas elevaria o nível do jogo em ambos os países.

Embora nenhuma destas propostas tenha a dimensão dos eventos que os nossos rivais estão a organizar, têm a vantagem de não exigir o investimento avultado ou o risco que a Federação não pode, atualmente, assumir. O objetivo final, no entanto, permanece inalterado: democratizar a modalidade e levar o rugby a cada vez mais pessoas. Vamos começar pequeno e crescer a partir daí.

Primeiros Passos
História do Rugby