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Adeus à Rugby TV
Opinião

Está na hora.

Artigo escrito por: Joel Monteiro

O planeta está, por estes dias, sintonizado no Mundial da FIFA 2026 e, embora falte perto de 1 mês para a final, já é seguro apontar um vencedor claro: a LiveModeTV. À data em que escrevo, o canal soma mais de 600.000 subscritores (cresceu mais de 10x desde o início da competição) e não para de bater recordes de audiências. São os próprios espectadores que escolhem o jogo do Mundial que o canal passa por dia e o chat do YouTube permite-lhes comentar, reagir e até interagir com os comentadores, uma estratégia claramente vencedora que lhes permitiu chegar perto dos 1,3M de dispositivos únicos nos primeiros dias do Mundial. Cristiano Ronaldo comprou uma participação no canal e quem, na altura, levantou questões sobre a viabilidade do negócio ainda não percebeu que o YouTube não é apenas futuro, mas sim o presente.

Na semana passada escrevi sobre o declínio generalizado das audiências em televisão, mas não referi um pormenor – o consumo de mídia não mudou; os meios em que é consumido é que sim. E nenhum outro meio tem saído tanto a ganhar quanto o YouTube.

Um mundo aberto vs uma aldeia fechada

O YouTube é o segundo site mais visitado do planeta e goza de um monopólio de facto no consumo de vídeo em formato longo gerado pelos utilizadores. Uma das grandes vantagens do YouTube é já estar instalado em todos os smartphones, televisões, tablets, boxes de televisão por cabo e outros dispositivos inteligentes. Se fosse uma religião, o YouTube teria não só o maior número de devotos, como também os mais praticantes: 34% da população mundial tem lá conta e consome, em média, 50 minutos de vídeo todos os dias. Por cá, este domínio é ainda mais expressivo: 85% dos portugueses com acesso à internet têm conta lá. A plataforma é especialmente relevante para alcançar os segmentos mais jovens: o maior grupo etário na plataforma tem entre 18 e 34 anos. Regressando aos números do sucesso da LiveModeTV, 71,4% de quem assistiu aos primeiros jogos do Mundial da FIFA 2026 pelo canal tem entre 18 e 44 anos. Estes números demonstram na perfeição que os jovens não estão a consumir menos desporto, mas sim a consumi-lo de forma diferente fora dos canais tradicionais porque estes passam muito pouco desporto de forma gratuita.

Há vários anos que o rugby também se apercebeu da importância do YouTube e a plataforma é o ponto central de algumas das maiores organizações da modalidade no planeta. No último fim-de-semana, Twickenham encheu para a final do campeonato inglês entre os Northampton Saints e os Exeter Chiefs. Quem não conseguiu um dos 82.000 bilhetes vendidos pôde assistir a partir de casa pelo canal de YouTube da PREM Rugby. Os que preferem rugby francês vão poder assistir à final do Top 14 gratuitamente no YouTube através de uma parceria com o canal FR-UK Rugby. Quem fez o sacrifício de acordar cedo para acompanhar o rugby do Hemisfério Sul comeu muito bem esta época com todos os jogos do Super Rugby Pacific a passarem ao vivo no canal de YouTube da competição. Até os nossos grandes rivais espanhóis estão lá em força, com todo o campeonato transmitido ao vivo e a somar milhares de visualizações.

Como vimos na semana passada, a acessibilidade é o maior obstáculo ao crescimento do rugby em Portugal porque as exibições que historicamente mobilizam mais miúdos a inscreverem-se no rugby estão atrás de  subscrições mensais que a esmagadora maioria das famílias portuguesas é incapaz de suportar. E para passar mais sal na ferida, a principal competição regular dos Lobos (o Rugby Europe Championship) é transmitida gratuitamente no canal de YouTube da Rugby Europe – mas está geobloqueada em Portugal porque os direitos foram cedidos a canais premium que chegam a uma franja reduzida da população.

Atualmente, a forma gratuita que os portugueses têm de ver rugby é a Rugby TV. Lançada no final de 2019, a Rugby TV é uma excelente ideia (transmissão gratuita de alguns jogos das seleções e da Divisão de Honra), mas com uma má execução (está numa plataforma própria, fechada do mundo e acessível apenas a partir de um browser). A ideia da Rugby TV foi um passo importante na acessibilidade do rugby, mas em 2026, não faz qualquer sentido continuar a existir com tudo o que o YouTube oferece. O facto da Rugby TV ser acessível apenas a partir de um browser é bem mais do que um mero inconveniente – é um factor altamente limitante da forma como o rugby português pode ser consumido, exigindo grandes malabarismos com cabos HDMI ou sorte com a compatibilidade de sistemas que temos em casa para ser exibido em algo tão simples quanto uma televisão.

Por outras palavras, está na hora da Rugby TV fazer as malas e mudar-se para o YouTube, não só para facilitar a vida de quem quer ver rugby português, mas porque é lá que pode realmente cumprir o seu papel de ser “um motor de crescimento do Rugby Português”, como consta do mais recente plano estratégico. É no YouTube que o mundo acontece – até a Rugby TV tem lá conta!

Olá, Mundo.

Confesso que, enquanto estratega com uma reputação a manter, custa-me, em 2026, escrever sobre quão óbvio o YouTube é para uma organização desportiva porque já levamos anos e anos de ligas e equipas a utilizarem a plataforma como ponto central da sua estratégia de crescimento (se quiserem um exemplo rápido, deixo aqui o vídeo “How YouTube Changed Formula 1”, publicado pelo canal Athletic Interest, sobre como a F1 se tornou o desporto com maior crescimento graças ao YouTube). Como disse acima, não faz qualquer sentido continuarmos a transmitir jogos num site fechado e dedicado como a Rugby TV quando podemos transmiti-los no YouTube e chegar a qualquer pessoa independentemente do dispositivo que tenha.

Ao passarmos a atividade da Rugby TV para o YouTube conseguimos:

  • Ter métricas de consumo dos conteúdos que possamos utilizar para mostrar aos patrocinadores que vale a pena investirem no rugby português e, desta forma, financiar clubes e federação.
  • Transmitir os jogos em direto, da mesma forma e sem pagar por isso.
  • Aumentar imediatamente o número de pessoas que assistem ao rugby português.
  • Dar aos fãs uma forma de interagir durante o jogo, se assim o desejarem.
  • Assistir aos jogos a partir de qualquer dispositivo sem estarmos dependentes de um browser.
  • Fazer com que o rugby português possa ser descoberto através da pesquisa.
  • Chegar a uma audiência global.
  • Aumentar exponencialmente a exposição do talento do nosso campeonato, uma vez que olheiros de ligas profissionais passam a ter o seu trabalho infinitamente facilitado.
  • Monetizar o canal através de anúncios.
  • Controlar os anúncios dos patrocinadores exibidos antes e durante a transmissão do jogo.
  • Carregar resumos de jogos, entrevistas, reportagens e outros vídeos no canal.
  • Avisar os subscritores do canal de que um jogo está agendado, de que um jogo está a decorrer ou de que há novos conteúdos para assistirem.
  • Publicar Shorts com os melhores momentos do jogo e outro conteúdo com jogadores e equipas e beneficiar do enorme alcance deste formato.
  • Usar Live Redirect nos jogos do Rugby Europe Championship para encaminhar os subscritores para o stream da Rugby Europe, tornando, desta forma, os jogos dos Lobos gratuitos a toda a gente.

  • Stream matches live in exactly the same way, at no cost.
  • Immediately increase the number of people watching Portuguese rugby.
  • Give fans a way to interact during matches if they choose.
  • Allow viewers to watch from any device without depending on a browser.
  • Make Portuguese rugby discoverable through search.
  • Reach a global audience.
  • Exponentially increase exposure for players in our domestic league, making life much easier for scouts from professional competitions.
  • Monetize the channel through advertising.
  • Control sponsor advertisements shown before and during broadcasts.
  • Upload match highlights, interviews, reports, and other video content.
  • Notify subscribers when matches are scheduled, live, or when new content is available.
  • Publish Shorts featuring match highlights, players, and teams while benefiting from the format’s enormous reach.
  • Use Live Redirect during Rugby Europe Championship matches to direct subscribers to Rugby Europe’s streams, effectively making Wolves matches free for everyone.
  • Gather audience metrics that can be used to demonstrate value to sponsors and encourage investment in Portuguese rugby, helping fund both clubs and the federation.

Seguramente estou a esquecer-me de outras vantagens, mas acho que a ideia é clara: não existe uma única vantagem que a Rugby TV ofereça em relação ao YouTube (acreditem que bem pensei no assunto). Portanto, o meu conselho à FPR é:

  • Alterem o handle do canal atual de @fprvideos para @portugalrugby.
  • Alterem o nome do canal de Rugby TV Oficial para Portugal Rugby (Rugby TV Oficial é demasiado genérico e não nos remete para o rugby português).
  • Comecem a carregar para o canal de YouTube todo o conteúdo produzido para a atual Rugby TV que conseguirem e organizem-no por playlists.
  • Preparem as transmissões dos jogos da próxima época para passar no YouTube.
  • Configurem um redirecionamento permanente em https://rugbytv.pt/ para o canal de YouTube. Desta forma, evitam que utilizadores fidelizados que não vejam a notícia de que os jogos passam no YouTube tenham de procurar pelo novo canal.

  • Recover access to Rugby TV’s current YouTube channel.
  • Change the channel handle from @fprvideos to @portugalrugby.
  • Rename the channel from Rugby TV Oficial to Portugal Rugby (“Rugby TV Oficial” is too generic and does not clearly identify Portuguese rugby).
  • Upload as much content as possible from the current Rugby TV platform and organize it into playlists.
  • Prepare next season’s broadcasts to be streamed through YouTube.
  • Set up a permanent redirect from https://rugbytv.pt/ to the YouTube channel so loyal viewers who miss the announcement do not have to search for the new destination.

Depois disto, é começar a pensar em novos conteúdos além de jogos porque o céu passa a ser o limite. Deixo aqui alguns exemplos de conteúdo variado, bem feito e, na sua maioria, sem custos adicionais que podem ser replicados pelo canal de YouTube da FPR:

Conclusão

Se queremos massificar e tornar acessível o rugby português, temos que ir atrás dos canais acessíveis e massificados (se quisermos redundância, os jogos podem igualmente ser transmitidos através do Facebook Live, onde tanta gente pergunta, a toda a hora, onde vão passar os jogos). Se queremos ser levados a sério e atrair financiamento para o rugby, é um erro colossal continuarmos a apresentar-nos como completamente desligados da realidade do mundo e insistirmos em plataformas fechadas e com métricas invisíveis.

Ainda há um longo caminho a percorrer para melhorar a qualidade do nosso rugby de forma a torná-lo num produto comercialmente apelativo, mas garantir que sabemos utilizar os canais ao nosso alcance é um passo crucial para chegar a novos espectadores, novos atletas e novos patrocinadores.

Credito: Luis Cabelo
USA v Portugal
Nations Cup